segunda-feira, 23 de junho de 2008

"Vai pagar os filmes agora ou na volta?"


Este fim-de-semana estive em uma locadora de filmes e a atendente me perguntou: "Vai pagar os filmes agora ou na volta, quando devolvê-los?". Então pensei: "Que diferença faz?". Em termos práticos, se você devolver sem atraso, não faz a mínima diferença, considerando que não conseguimos aplicar essa grana no fim-de-semana e receber 2 dias da taxa DI. Mas por que algumas pessoas preferem pagar na volta e outras preferem pagar no ato do aluguel?? Aqui deveria ser feita uma pesquisa de campo, para podermos quantificar isto. No entanto, intuitivamente, podemos supor que a pessoa que paga no ato, de modo geral, paga pensando: "deixa eu me livrar logo desta obrigação e, na volta, apenas entrego o bendito filme"; e a pessoa que paga na volta, geralmente, não tem um puto na carteira!! Mas, e se essas pessoas esquecerem de devolver e atrasarem a entrega, como se sentirão? 

Aqui arrisco-me a propor que podemos explicar este sentimento por meio das finanças comportamentais, dentro da linha de raciocínio da "falácia dos custos afundados" ou "custos incorridos", do termo em inglês "Sunk Costs". Um dos aspectos comportamentais estudados pelas finanças comportamentais é a "contabilização mental".

Um estudo realizado por David Kahneman e Amos Tversky em 1981, trabalhou com dois grupos de pessoas, que foram expostas a duas situações semelhantes, em que os indivíduos haviam decidido assistir a uma peça de teatro cujo ingresso custaria $ 10,00. O primeiro grupo se deparava com a situação de ao chegarem ao teatro, perceberem que haviam perdido uma nota de $10,00. O segundo grupo havia adquirido o ingresso, no entanto, ao chegarem ao teatro percebem que o perderam. Ao primeiro grupo perguntou-se se desembolsariam mais $10,00, uma vez que haviam perdido uma nota de $10,00. Para o segundo grupo, é perguntado se, mesmo havendo perdido um ingresso de $10,00, estariam propensos a gastarem mais $10,00. Nas duas situações há a necessidade de desembolso de $10,00, ou seja, trata-se de custos já incorridos. Desta forma, os indivíduos parecem contabilizar o custo do ingresso: no primeiro caso com o valor de $10,00 correspondendo ao valor real do ingresso e, no segundo caso, com o valor de $20,00 correspondendo ao valor real do ingresso adicionado do valor do ingresso perdido. Ou seja, ao perder o ingresso, o dinheiro já havia sido "alocado", o que não acontece quando o dinheiro é perdido.

No nosso caso da locadora, ao pagar no ato ou na entrega, com ou sem atraso, desembolsamos o mesmo valor. No entanto, quando atrasamos a entrega do filme tendo já pago inicialmente, sentimo-nos mais prejudicados, pois o dinheiro já havia sido alocado. É como perder o ingresso do teatro.